O agronegócio brasileiro encerrou 2025 com US$ 169,2 bilhões em exportações, alta de 3,0% sobre os US$ 164,3 bilhões de 2024 e o equivalente a 48,5% de tudo o que o país vendeu ao exterior, segundo dados divulgados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A China, sozinha, respondeu por US$ 55,3 bilhões, ou 32,7% do total, com crescimento de 11% no ano. Os números confirmam uma relação comercial madura; ao mesmo tempo, expõem a pergunta que todo exportador do setor deveria se fazer: de onde virá o próximo ciclo de crescimento, quando a base já é tão alta e tão concentrada em um único cliente?
A resposta, cada vez mais, está na própria Ásia. Não apenas em Pequim, mas em Hanói, Jacarta, Manila, Tóquio e Seul. E não apenas na soja, mas em proteínas, café, pescados, frutas e ingredientes de maior valor agregado.
China: a âncora que segue crescendo
Antes de falar em diversificação, é preciso dimensionar o papel chinês com precisão. A corrente de comércio do agronegócio entre Brasil e China movimentou cerca de US$ 100 bilhões em 2025, o segundo maior valor de uma série histórica de 29 anos, atrás apenas dos US$ 104 bilhões de 2023, conforme levantamento publicado pela CNN Brasil. Foram 87,1 milhões de toneladas de soja embarcadas para o país no ano, além de 1,68 milhão de toneladas de carne bovina, que somaram US$ 8,90 bilhões e representaram 48% de todo o volume exportado pelo Brasil, e de 159,2 mil toneladas de carne suína.
“A China depende das importações brasileiras para alimentar sua população e controlar a inflação de alimentos”, observa a análise da CNN Brasil. Do lado brasileiro, o país asiático oferece a segurança de um comprador capaz de absorver grandes volumes.
Complementaridade, porém, não elimina risco. Quando um único mercado responde por um terço da receita externa do setor, qualquer mudança regulatória, sanitária ou geopolítica em Pequim tem efeito imediato sobre preços e margens no Brasil. Por isso, a agenda de abertura de novos mercados deixou de ser um tema diplomático distante e passou a ser variável central de planejamento comercial.
A diversificação saiu do discurso: 507 mercados abertos
Entre 2023 e dezembro de 2025, o Mapa consolidou a abertura de 507 mercados para produtos agropecuários brasileiros, o maior avanço já registrado, sendo mais de 200 somente em 2025. Segundo o ministério, os novos acessos já geraram US$ 3,4 bilhões em exportações, têm potencial de adicionar outros US$ 4 bilhões e miram destinos que importam, somados, US$ 37,5 bilhões por ano.
O detalhe mais relevante para quem planeja expansão internacional: a Ásia lidera esse movimento com folga. Das 535 aberturas contabilizadas desde 2023 até o início de 2026, 228 estão no continente asiático, o equivalente a 42,6% do total, e mais de 100 delas envolvem pecuária e pescados. No ranking por país, Coreia do Sul e Japão dividem a liderança, com 18 mercados abertos cada um.
Até a pauta com a própria China está mudando de perfil. As aberturas recentes incluem sorgo, DDG (subproduto do milho destinado a ração animal), gergelim e subprodutos avícolas: itens que ampliam a base exportadora para além das commodities tradicionais e criam espaço também para empresas de médio porte, não apenas para as grandes tradings.
Sudeste Asiático: o caso Vietnã
Nenhum episódio ilustra melhor a nova onda asiática do que a reabertura do Vietnã à carne bovina brasileira, anunciada em 28 de março de 2025, durante missão presidencial ao país. O mercado estava fechado desde 2017. São cerca de 100 milhões de habitantes e um consumo anual estimado em 300 mil toneladas de carne bovina, hoje abastecido em grande parte por importações. As projeções do setor indicam que o Brasil pode capturar entre 45 mil e 50 mil toneladas por ano no curto prazo, algo próximo de 30% das importações vietnamitas, com potencial de alcançar 182 mil toneladas anuais até 2035.
Dois pontos merecem a atenção do exportador. Primeiro, o perfil de consumo local privilegia cortes menos valorizados no mercado interno brasileiro, como observou o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, na ocasião do anúncio; isso cria complementaridade de portfólio em vez de canibalizar as vendas domésticas. Segundo, a habilitação inicial foi restrita: até o fim de 2025, apenas duas plantas frigoríficas haviam sido autorizadas a exportar. Em mercado recém-aberto, quem se habilita primeiro ocupa os canais de distribuição e define os padrões de fornecimento.
O movimento não se limita ao Vietnã. O pacote de aberturas de 2025 incluiu novas autorizações para Filipinas e Indonésia, reforçando o Sudeste Asiático como o eixo mais dinâmico da diversificação em curso.
Japão e Coreia do Sul: a fronteira do valor agregado
Se o Sudeste Asiático é a fronteira de volume, Japão e Coreia do Sul são a fronteira de margem. Os dois países lideram as aberturas de mercado para o Brasil desde 2023 e concentram as negociações mais sensíveis em proteína animal. No caso japonês, a expectativa da indústria, registrada no fim de 2025 pelo presidente da Abiec, Roberto Perosa, era de abertura à carne bovina brasileira no primeiro semestre de 2026, com habilitação por pré-listing, modelo em que o próprio país exportador indica as plantas aptas. O processo estava então na sexta de doze etapas previstas, com auditoria sanitária programada, e a tarifa inicial estimada em 38%, a mesma aplicada ao Uruguai.
Na Coreia do Sul, a carne bovina é o foco central da negociação bilateral, e as aberturas recentes incluem genética avícola, macadâmia e óleos e farinhas de origem animal. São mercados exigentes, de renda alta, que remuneram consistência, rastreabilidade e conformidade sanitária: exatamente os atributos que transformam commodity em produto de maior valor agregado.
Os resultados de 2025 mostram que essa rota de valor já está em curso. A receita com carne bovina cresceu 39,9% no ano, para US$ 17,9 bilhões, e a do café avançou 30,3%, para US$ 16 bilhões, enquanto o Brasil se consolidou como terceiro maior exportador mundial de carne suína.
O que isso significa para a empresa exportadora
Para a empresa de médio porte, a leitura estratégica desse cenário pode ser resumida em quatro pontos:
- Abertura de mercado é janela, não garantia. O acesso sanitário cria a possibilidade de vender; canal, cliente e contrato continuam sendo construídos empresa por empresa.
- Chegar cedo tem prêmio. Em mercados recém-abertos, como o Vietnã, os primeiros habilitados definem padrões e ocupam a distribuição antes da concorrência.
- Conformidade virou ativo comercial. Em destinos como Japão e Coreia do Sul, a exigência sanitária e documental que hoje parece barreira é, na prática, o que protege a margem de quem se qualifica.
- Diversificar não é abandonar a China. O desenho eficiente combina a âncora chinesa de volume com mercados asiáticos de margem e menor concorrência.
Da leitura de mercado ao plano de exportação
Um cenário como esse não se aproveita com oportunismo, e sim com método. É assim que a AXIA estrutura projetos de internacionalização: o Diagnóstico avalia se produto, certificações e capacidade produtiva atendem aos requisitos de cada destino asiático; a Estratégia define quais mercados priorizar, ponderando volume, margem, barreiras e prazo de maturação; a Prospecção identifica e qualifica importadores e distribuidores nos canais certos; a Negociação transforma interesse em condições comerciais sustentáveis; e a etapa de Vendas acompanha a operação até que os embarques se tornem recorrentes.
A próxima onda de demanda asiática pelo agro brasileiro já tem endereço: está nos números do Vietnã, nas etapas finais da negociação com o Japão, nas 18 aberturas da Coreia do Sul e nos nichos que a própria China começou a comprar. A questão, para cada empresa, é saber com precisão em qual dessas portas vale bater primeiro. É exatamente essa resposta que um diagnóstico inicial bem-feito entrega.
Referências
- Agronegócio brasileiro bate recorde e exporta US$ 169 bilhões em 2025 · Conexão Safra (2026)
- Comércio entre Brasil e China gera US$ 100 bilhões ao agronegócio · CNN Brasil (2026)
- Ásia lidera abertura de mercados para o agronegócio brasileiro · CNN Brasil (2026)
- Mapa consolida maior avanço da história no acesso a mercados para o agronegócio brasileiro · Agrolink (2025)
- Vietnã: nova fronteira para a carne bovina brasileira · CompreRural (2025)
- Indústria da carne bovina confia em abertura do mercado japonês para o primeiro semestre de 2026 · Globo Rural, via Fiesp (2025)